“A rua é uma casa sem paredes”

 

Reflexões de uma educadora que, depois de 10 anos, superou a situação de rua

 

Neide Vita foi educadora social e usou sua vivência de dez anos em situação de rua para apoiar pessoas nessa condição. Morreu na madrugada de 27 de maio de 2018, aos 55 anos. Dias antes, em 11 de maio, havia nos concedido uma longa entrevista, que muito nos ajudou no processo de aproximação e conhecimento desse território. Nesse trajeto, nos juntamos a todos que lamentam profundamente sua morte.

A seguir, alguns trechos dessa conversa na forma de depoimento.

 

Quando a rede de proteção falha

“Existe um grande questionamento das pessoas: o que uma mulher vai fazer na rua? Primeiro, muitas mulheres chegam na rua ainda menina, pré-adolescente, como eu vim. E geralmente ela é vítima de alguma violência familiar, brigas entre o pai e a mãe; muitas vezes ela não sabe como lidar com aquilo e foge. Outra questão é a violência sexual, a criança ser molestada. Tem também o envolvimento precoce da criança com a droga, por curiosidade, que acontece muitas vezes entre a casa e a escola. A política pública falha com a criança, com a mulher, por não fazer um acompanhamento, um fortalecimento familiar. Em uma família fragilizada, qualquer pessoa pode chegar à situação de rua.”

 

A rua que acolhe

“A rua é uma mãe que acolhe, e toda mãe também corrige. Viramos uma família, que se desentende, sim, porque cada um tem um pensamento; alguns estão alterados pelo álcool, outras substâncias, transtornos mentais devido a sua trajetória, e aí ocorrem confrontos. A rua é uma casa sem paredes: tudo o que ocorre dento de uma casa, com quatro paredes, vários cômodos, também ocorre na rua.”

 

A rua é machista

“O território da rua não é diferente da sociedade, como as pessoas acham. É um território onde a violência é maior, mais imperativa, mais gritante. Lá a resposta é imediata, se tiver alguém agredindo, responde na porrada, não há esse tempo de dialogar. Mas lá também o machismo impera. Muitas mulheres, quando chegam na rua, passam a usar roupas mais largas, masculinas, para esconder o corpo, para não chamar atenção. Às vezes anda suja, fedida, falando sozinha, para fugir da violência. É muito triste. Acontece dessa mulher estar machucada, com o olho roxo, e o companheiro agressor ainda ajuda ela a disfarçar.”

 

 

Um outro inferno

“Quando eu saí de casa, da violência que vivia ali, não sabia para aonde estava indo. Você cai num inferno, mas não digo que foi pior. Eu sempre digo: a dor maior é a violência dentro do lar. Isso te destrói, seja menina, adolescente, mulher.”

 

Droga como amortecedor

“Não fazer uso de drogas é extremamente difícil. Como manter a saúde mental aqui? O tempo todo você está respirando o ar poluído, ouvindo o barulho de carro, risadas de pessoas que passam, pessoas que te apontam, pessoa que você vai pedir alguma coisa e ela diz: vagabundo, vai trabalhar. E são poucas as empresas que abrem portas.”

 

Quem tem medo de quem?

“As pessoas têm medo dessa parte da sociedade, que está em situação de rua. Você precisa ter bom senso, você pode se preservar, mas medo, não. Medo temos nós: a gente não sabe se você vai sacar uma garrafinha de álcool e jogar fogo em mim.

 

Sororidade

“Não é muito diferente da parte de cá: mulheres juntas, não dá certo. Esse mundo machista, capitalista, onde a gente aprende que mulher não se veste pra ela. Então, quando chega na rua uma mulher mais bonitinha, que se impõe mais, incomoda as outras. Elas delimitam os seus espaços, não deixam muita proximidade.

 

Violência sexual

Muitas vezes, ela vem pra rua ainda menina, adolescentes e, em pouco tempo, ela acaba precisando de um tutor, por causa da violência dentro do território. O estupro nem sempre vem das pessoas em situação de rua, vem também de pessoas da sociedade: que estudam, que trabalham, que acham que aquela menina, aquela adolescente em situação de rua é um objeto, um vaso sanitário, é uma vagabunda, eu posso usar. O corpo da mulher, infelizmente, é visto essa forma.

 

Resgate social

“Existem projetos que fazem o dia da beleza, que cortam o cabelo, fazem a unha, maquiagem. E elas vão se encontrando com elas. De repente, elas olham e falam: nossa, essa sou eu? Apesar da magreza. E aí, a gente tem que ser muito ágil e trabalhar aquilo e saúde, tudo junto, tentar fazer com que ela se reconheça como humana. Porque ela é uma cidadã. Sempre falo com os outros: e se fosse sua filha, sua irmã?”

 

A difícil volta para uma casa

“Para fazer esse caminho de volta, você não encontra na cidade de São Paulo esse quartinho para pagar 400 reais com banheiro. Eu, quando saí de onde estava, pagava 800 reais por um quarto e banheiro, que era comunitário, eram umas 15 famílias. Se você consegue minimamente fazer uns 300 reais por mês, mais uma bolsa família de 80 reais, mais qualquer coisa que faz 100... uns 500 reais por mês. Isso não dá. E para gerar isso, você precisa de um capital, porque precisa estar bem arrumado. Aí, a ocupação {de prédios abandonados} vira uma opção, tem até lugar para a carroça, seu cachorrinho. Coisa que não dá para levar para um quartinho.

 

População grande e heterogênea

“Hoje, a população em situação de rua é muito grande, a estimativa é que esteja em torno de 27 mil pessoas. E também é muito heterogênea, não é mais aquele tempo do ‘homem do saco’. Com a queda da economia, muitas pessoas que perderam o emprego e moravam de aluguel ou em ocupação estão hoje na rua. São famílias que não cabem em CTA (Centro Temporário de Acolhimento), são os imigrantes, a população LGBT, são vários segmentos.”

 

Poucos espaços de acolhimento para mulheres

“Os equipamentos para mulheres ainda são poucos, não olham as necessidades das mulheres. Por exemplo, tem mulher que tem um filho de quatro meses, você pensa: vamos criar um espaço para mulher e bebês. Mas aquela mulher tem outro de 5 anos, outro de 12 e outro de 17 anos. Aí ele vai fazer 18 e não vai poder entrar, vai para outro sistema. Então, já segrega a família.”

 

Muitas regras

“Eu acho que é preciso chegar até essa mulher, ver o que ela precisa, construir a política de acolhimento com ela. Tem que ver como é a vida daquela pessoa, muitas vezes ela se sente mais segura na rua, perto de uma GCM (Guarda Civil Municipal), do que dentro do Centro de Acolhida, onde ela pode ter uma desavença com uma mulher. Muitas vezes ela não se adapta àquelas regras: tem que cumprir horário, se estuda à noite e chega tarde já não tem janta. Ela quer estudar, mas tem que apagar a luz. Tem que participar de oficinas que talvez não esteja a fim.”

 

Integração, sensibilidade e “combinadinho”

“O Estado, a Prefeitura, as Secretarias da Mulher, de Direitos Humanos, da Saúde etc, precisam trabalhar em conjunto com as ONGs pois são elas que fazem a maior parte do trabalho com essa população. O gestor público precisa ter sensibilidade para cuidar desse segmento, principalmente da mulher. É preciso ter combinadinhos, não regras. É assim que eu trabalho com a minha população: vamos combinar assim? Assim dá pra fazer, pode ser?”